Carlos Serrão

as minhas notas e página pessoal…

O negócio das conferências científicas…

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Este é um tópico que não sendo directamente tecnológico, está directamente relacionado com a minha actividade (actual), com algum do trabalho específico que um candidato a PhD tem que fazer e em geral quem segue uma cadeira mais voltada para a academia e para a R&D.

Quem está a fazer um PhD, sabe que alguns dos marcos mais importantes do mesmo são as publicações científicas. Com essas publicações científicas é quase “meio caminho andado” para a escrita da tese, e consequente conclusão da mesma. Essas publicações científicas são tipicamente as comunicações em conferências, a publicação de artigos em proceedings e a colocação de artigos em jornais ou revistas.

Com a crescente procura de meios de publicação científica, diga-se, nem sempre de qualidade, a oferta tem vindo a aumentar, e hoje em dia sou tentado a afirmar que a oferta já é muito superior à procura. Isto é, existem já demasiadas conferências, e demasiados jornais e/ou revistas científicas, para a quantidade de produção existente. E isto é interessante, pois estamos hojem em dia a assistir a um fenómeno curioso. As conferências (ditas) científicas tornaram-se um negócio.

O mesmo se poderia aplicar a algumas revistas e jornais científicos, embora em menor número…

Alguns factos sobre algumas (não todas) conferências científicas:

  • As conferências são realizadas e os respectivos autores dos artigos pagam para irem apresentar as suas comunicações e os seus artigos são depois publicados em proceedings;
  • As conferências, implicam para os autores dessas comunicações dois tipos de custo: a) a inscrição na conferência, e b) a deslocação e estadia para participar na mesma;
  • Os artigos não são publicados nos proceedings de uma conferência, se os autores não estiverem devidamente e antecipadamente inscritos na mesma (ou seja, se não pagar, o seu artigo não é colocado na conferência, independentemente da sua qualidade ou relevância);
  • Todos os artigos são vistos/revistos por um conjunto de pessoas, que fazem parte do Programm Commitee da conferência. Estas pessoas são habitualmente especialistas nas temáticas da conferência;
  • Algumas das conferências têm manifestamente baixa qualidade e geram muito pouco interesse por parte dos próprios participantes.

Recentemente aconteceu-me uma situação caricata. Submeti um artigo para uma conferência (não interessa que conferência é que é), como habitualmente faço, e qual não foi o meu espanto quando recebo um email, enviado pelo Chair da conferência a indicar-me que como a conferência tinha recebido muitos papers (cerca de 700, dizia ele) que eu tinha papers para rever e avaliar também. Desculpem ?!?!?!? Mas que raio é isto? É claro que me recusei a rever papers, e ainda enviei um email para o Chair da conferência a protestar. Isto pelos seguintes motivos:

  1. Não faço parte do Programm Commitee da conferência em causa…
  2. É a primeira vez que isto acontece numa conferência em que envio propostas de artigos. A responsabilidade da avaliação dos papers não deve ser dos próprios autores (embora neste caso não se tratasse directamente do meu paper), mas sim do Programm Commitee da conferência;
  3. Foram-me atribuídos papers (e imagino que aos restantes autores também) que nada tinham que ver com a minha área de especialidade. Estou portanto a antever o tipo e a qualidade de avaliação a que os papers vão ser submetidos. Quanto muito poderia ser avaliada a qualidade do inglês, a forma como estavam escritos, mas nada poderia ser dito relativamente à qualidade técnica e científica dos mesmos;
  4. Finalmente, os papers continham os nomes e a afiliação dos autores. Pelos vistos nesta conferência não sabem quão importante nestas coisas é um blind review. Enfim…

Bem… escusado será dizer que risquei esta conferência da minha lista!!!

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